Novo tratamento para depressão grave com estimulação cerebral sob demanda

Novo estudo publicado na Nature Medicine aponta possível tratamento para depressão grave com estimulação cerebral sob demanda. Essa descoberta representa um marco de sucesso no esforço de anos para aplicar os avanços da neurociência ao tratamento de transtornos psiquiátricos.

Os pesquisadores desenvolveram uma abordagem de medicina de precisão que conseguiu administrar, com sucesso, a depressão resistente ao tratamento, identificando e modulando o circuito no cérebro do paciente que está exclusivamente associado a seus sintomas.

Ensaios clínicos anteriores mostraram sucesso limitado no tratamento da depressão com estimulação cerebral profunda (DBS) tradicional, em parte porque a maioria dos dispositivos só pode fornecer estimulação elétrica constante, geralmente apenas em uma área do cérebro. Um grande desafio para a área é que a depressão pode envolver diferentes áreas do cérebro em diferentes pessoas.

O diferencial desse trabalho está na descoberta de um biomarcador neural - um padrão específico de atividade cerebral que indica o início dos sintomas - e a capacidade da equipe de personalizar um novo dispositivo DBS para responder apenas quando reconhece que padroniza. O dispositivo então estimula uma área diferente do circuito cerebral, criando uma terapia imediata e sob demanda que é exclusiva tanto para o cérebro do paciente quanto para o circuito neural que causa sua doença.

Os pesquisadores explicam que esta nova abordagem personalizada é capaz de aliviar os sintomas de depressão do paciente quase imediatamente, em contraste com o atraso de quatro a oito semanas dos modelos de tratamento padrão. Para pacientes com depressão resistente ao tratamento de longo prazo, esse resultado pode ser transformador.

A equipe de pesquisa da University of California San Francisco (UCSF) e The University of Maryland (MD) descobriram padrões de atividade elétrica do cérebro que se correlacionam com estados de humor e identificaram novas regiões cerebrais que poderiam ser estimuladas para aliviar o humor deprimido.

Com os resultados da pesquisa anterior como guia, eles desenvolveram uma estratégia baseada em duas etapas que nunca haviam sido usadas na pesquisa psiquiátrica: mapear um paciente no circuito de depressão e caracterizar seu biomarcador neural.

Os pesquisadores explicam que esse novo estudo reúne quase todas as descobertas críticas das pesquisas anteriores em um tratamento completo voltado para o alívio da depressão.

Para personalizar a terapia, os pesquisadores colocaram um dos eletrodos do dispositivo na área do cérebro onde a equipe havia encontrado o biomarcador e o outro eletrodo na região do circuito de depressão da paciente, onde a estimulação aliviou melhor os sintomas de humor. O primeiro lead monitorava constantemente a atividade; ao detectar o biomarcador, o dispositivo sinalizou para o outro eletrodo fornecer uma pequena dose (1mA) de eletricidade por 6 segundos, o que causou a alteração da atividade neural.

A eficácia desta terapia mostrou que não apenas foram identificados o circuito cerebral correto e o biomarcador, mas foram capazes de replicá-lo em uma fase posterior totalmente diferente do teste usando o dispositivo implantado.

Os pesquisadores alertam que embora a abordagem pareça promissora, este é apenas o primeiro paciente no primeiro ensaio e que ainda há muito trabalho pela frente.

Eles acreditam que precisam observar como esses circuitos variam entre os pacientes e repetir esse trabalho várias vezes. E também precisam ver se o biomarcador de um indivíduo ou o circuito do cérebro muda com o tempo à medida que o tratamento continua.

A aprovação do FDA para este tratamento ainda está longe, mas o estudo aponta para novos caminhos para o tratamento da depressão severa. Para os pesquisadores, compreender os circuitos cerebrais subjacentes à depressão provavelmente guiará futuros tratamentos não invasivos que podem modular esses circuitos.

Fonte: https://www.nature.com/articles/s41591-021-01480-w