Dislexia: entenda o que é

Um em cada 20 brasileiros possui baixa habilidade de decodificação e soletração, logo acaba desenvolvendo dificuldades no reconhecimento preciso das palavras e na compreensão de texto. Déficits cognitivos com prejuízo à leitura caracterizam a dislexia, um transtorno específico da aprendizagem, que atinge de 5% a 15% da população mundial, segundo a Associação Americana de Psiquiatria.


A International Dyslexia Association (IDA) caracteriza a dislexia como um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, caracterizada por dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente da palavra, na habilidade de decodificação e em soletração. Essas dificuldades normalmente resultam de um déficit no componente fonológico da linguagem e são inesperadas em relação à idade e outras habilidades cognitivas. Ainda não há consenso sobre o que causa essa limitação, mas a comunidade científica acredita que exista alguma modificação cromossômica que afeta as trocas neurotransmissoras nas atividades de leitura e escrita.


Estudos mostram que, em indivíduos sem Dislexia, há ativação da área temporal esquerda na execução de tarefas de linguagem e na análise fonológica das palavras (segmentação das unidades que a compõem). Os pesquisadores explicam que nas áreas de associação do hemisfério esquerdo é processada a leitura, a compreensão do material lido e a compreensão do vocabulário; na junção do lobo temporal e lobo occipital é realizada a análise visual da palavra e interpretação direta da análise ortográfica da palavra, ou seja, transferência direta da análise ortográfica para o significado. Já no lobo frontal, é feita a decodificação fonológica – execução da palavra falada além da discriminação visual complexa (fechamento da palavra escrita). Em relação à escrita, o lobo parietal faz a sequencialização dos símbolos gráficos, o occipital faz a discriminação visual dos símbolos gráficos e o lobo frontal faz a decodificação fonológica a e programação motora.


A presença da Dislexia se deve a disfunções neuropsicológicas que acometem as áreas do Sistema Nervoso Central, ocasionando, assim, falhas na decodificação, processamento, programação e execução da leitura e da escrita.


O Instituto ABCD produziu uma pesquisa de mapeamento que revelou uma série de barreiras para o apoio e o desenvolvimento de quem sofre o transtorno no Brasil. Dentre os obstáculos observados estão o diagnóstico tardio, falta de informação, carência de profissionais preparados para lidar com a questão nas redes públicas de saúde e de educação, e custo elevado para acompanhamento especializado. O estudo mostrou também que a situação se agravou ainda mais na pandemia, com quase 80% das famílias sem orientações no período para realizar as adaptações necessárias à rotina escolar.


Uma das premissas para diagnosticar a dislexia é a alfabetização concluída, mesmo que esse processo demore muito mais na comparação com quem não sofre do distúrbio. Antes do período escolar, essa limitação pode se apresentar na forma de falta de atenção, atraso no desenvolvimento da fala, dificuldade em aprender rimas e músicas. Durante o aprendizado de leitura e escrita, as limitações se mantêm e podem ser observadas mais claramente em atividades que envolvem a escrita e a leitura, como copiar livros ou quadros, por exemplo.


Uma das disfunções da dislexia é o déficit fonológico, que é a dificuldade de associar as letras aos sons, especialmente aquelas que têm mais de uma sonoridade, casos de s, z, r, c, x, por exemplo. O desenvolvimento da coordenação motora fina e grossa também é um desafio para os disléxicos. Logo, aprender a desenhar e pintar, assim como a execução de movimentos de dança e ginástica e até mesmo distinguir entre esquerda e direita também podem ser atividades mais complexas.


Os pais e familiares precisam estar atentos aos seus filhos, em caso de queixas escolares é recomendado o direcionamento para uma avaliação multidisciplinar para o diagnóstico da dislexia ou não. Essa avaliação multidisciplinar envolve profissionais das áreas da fonoaudiologia, psicologia, neuropsicologia e psicopedagogia. Também são feitos exames e uma série de testes. Essa avaliação possibilita detectar se é o caso de uma “criança de risco” para a Dislexia (quando existem muitos sinais, mas ainda é o início do processo de alfabetização), se há a Dislexia, ou ainda, se há presença de outros distúrbios, com encaminhamento imediato para intervenção.


É importante ressaltar que o termo mais adequado para as ações que promovem uma melhora na qualidade de vida de um disléxico é intervenção e não tratamento, já que esta condição não é considerada uma doença. Após o diagnóstico, as famílias são orientadas a buscarem o acompanhamento de profissionais capacitados em uma série de treinamentos que buscam estimular o cérebro a funcionar de uma forma diferente.